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O artigo que escrevi nesta coluna em Abril deste ano ("Um Titanic chamado Portugal") continua, infelizmente, a ser actual. O relatório do Banco de Portugal estima um decréscimo do PIB entre 0.75% e 1.5% para este ano, agravando as suas previsões em relação às anteriormente feitas. Não há quaisquer sinais de um esforço sério do Governo para resolver os problemas estruturais do défice, só medidas extraordinárias. Claro que a recessão faz diminuir as receitas, mas o esforço de contenção das despesas estruturais tem sido inexistente. A venda dos créditos fiscais ao Citigroup por um preço que poderá ser um quinto do valor dos créditos acentua a impotência das autoridades portuguesas para cobrar essas dívidas e convida os devedores, actuais e futuros, a não pagar. É como no futebol: clubes bem geridos e cumpridores acabam por ser prejudicados, a longo prazo, pois os que não cumprem são premiados com benesses como perdões fiscais, estádios novos feitos à medida para sacarem mais algum, etc. Cada vez mais se torna evidente que estamos num país em que dois terços de otários pagam tudo para o outro terço nada pagar.
Se você deve ao fisco, pense em não pagar. Se deve à Segurança Social idem. Pensa que poderá ficar sem reforma no futuro? Deixe lá, provavelmente todos ficaremos. Além disso, depois, faça barulho, acorrente-se a algum lado, chame a TVI ou a SIC, e talvez lhe dêem tudo o que quer.
Se você está numa casa alugada, pense em deixar de pagar a renda. Os processos judiciais arrastam-se muitos anos, o seu senhorio desesperará. Pense também em não pagar portagens, não pagar as multas, etc. Isso depois transitará para um Citigroup qualquer, e com mais algum esforço seu, talvez entre na lista daqueles créditos que se considerarão incobráveis à partida, ninguém o chateará depois. Parece que todas estas fugas agora valem a pena, a julgar pelo exemplo do negócio feito com o Citigroup e pela profunda desconfiança que todos os operadores imobiliários sentem do nosso mercado de arrendamento urbano.
Assim, o Titanic continua a avançar a caminho do iceberg, não há mostras de uma atitude decidida para o fazer mudar de rumo. Só a velha forma de fazer política por estas terras: muitos equilíbrios, agradar a todos, se os autarcas clamam dá-se mais aos autarcas, se uns industriais de um ramo qualquer protestam contra uma medida volta-se logo atrás, estão a ver, os equilíbrios, os pragmáticos equilíbrios. Nada melhor para a reeleição de um governo e sustentação da respectiva clientela.
Pense duas vezes antes de decidir manter depósitos bancários volumosos em qualquer dos grandes bancos portugueses. Estão cheios de mal-parados (de particulares e de empresas) e agora os capitais podem evaporar-se em semanas para offshores (como se viu em 2000). Por que não abrir umas contas offshore também? Compre algumas (só algumas) acções portuguesas agora que pode valer a pena, pelo menos algumas tenderão a subir, apesar da recessão. Venda as suas obrigações do tesouro portuguesas. O emitente não tem a sua solvência garantida e talvez valha a pena estudar o que sucedeu aos detentores de obrigações do tesouro de certos países sul-americanos nas últimas décadas.
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