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É visível, na cobertura das eleições pela CNN, um conjunto de truques para favorecer John McCain contra Barack Obama. Os truques são, contudo, muito subtis, e vale a pena analisá-los. Eles utilizam chaves emocionais, instintivas, para gradualmente inculcarem no público desconfiança em relação a Obama. O curioso é que a CNN não tem tido uma postura de direita em muitas áreas. A CNN, tal como outras estações, tem feito uma constante cobertura de furacões e outras catástrofes naturais (mesmo quando não são nos EUA). Chama assim a atenção para o aquecimento global, um fenómeno perigosíssimo e que se está a agravar rapidamente. Isto é uma bandeira mais da esquerda. Também na vertente económica, tem feito muita cobertura dos problemas gerados pelo excesso de liberalismo, do mau sistema de saúde americano, da fome em África, tudo isto temas mais queridos da esquerda (os "liberals", como os americanos dizem). Também na questão das relações raciais, a CNN, tal como quase todos os media aliás, tem feito muito para combater o racismo, como se pode ver nos muitos negros, mulatos e hispânicos que lá trabalham, e na sua cobertura dos eventos que envolvem tensões raciais, em que nunca toma partido pelos movimentos racistas. Por tudo isto, é de crer que o editorial seja mais favorável ao Obama do que ao McCain na maioria dos assuntos. É natural que simpatizem com as propostas dele no que respeita ao sistema de saúde, os impostos sobre as grandes companhias, etc. Também devem desejar uma maior integração racial, e para isso a eleição do Obama seria favorável. A esta luz, os truques que se seguem são difíceis de explicar. Na cobertura da Convenção Republicana, a que assisti agora, a CNN mostra muito bem a apoteose de patriotismo: as bandeiras que dizem "Country First", e que insinuam que o Obama não é tão patriota. Bom, essas bandeiras foram feitas pelo partido, não pela CNN, mas por que é que esta as foca tanto, e em primeiro plano? No telespectador é evocado subliminarmente que o Obama frequentou uma igreja que dizia mal do país, que tem pai estrangeiro, que o McCain é um herói de guerra. E nos intervalos da cobertura da Convenção? Vi várias vezes numa só noite um anúncio de uma revista africana, "The New African", em que um locutor falando em mau inglês fala das "grandes personalidades de África", os "modernos conseguimentos de África", ao mesmo tempo que desfilam retratos de africanos e africanas vestidas com trajos locais, pitorescos, "étnicos". Ideia subliminarmente sugerida no telespectador: "Aí está a terra do Obama...Conseguimentos? Quais? Grandes personalidades? Aqueles atrasados? E um deles é agora candidato às nossas eleições?". O telespectador deve pensar isto subconscientemente, uns 10 segundos depois de ter visto todos aqueles brancos heróis e patriotas na Convenção. Outra "conexão africana subliminar", se assim lhe posso chamar, e que vi várias vezes numa noite também, é um ou outro activista africano a falar de diversos problemas de África (com imagens associadas): miséria, violência, Sida. Mais uma vez o telespectador fica com "má impressão", um conjunto dos seus neurónios dispara um "Não", associa ao Obama ("ele vem dali...") e a CNN até pode dizer que a intenção desta passagem é das melhores. Outra ainda, ultra-subtil desta vez, foi uma entrevista com um comentador político numa sala, também num intervalo entre as coberturas das Convenções, em que havia na parede, bem visível de frente para a câmara, um quadro de pintura naive com um elefante pintado, a caminhar da direita para a esquerda. Ideia subliminar: "alguém vindo de África (que está à direita da América no mapa) vem a caminhar para cá". Outra conexão é, nesses mesmos intervalos, referências ao 11 de Setembro, e a desenvolvimentos positivos da guerra no Iraque e Afeganistão. "O McCain, que sugeriu o aumento de tropas, é que tinha razão, e ele é que vai continuar bem a guerra ao terror". Ou seja, a CNN está a beneficiar o McCain. Como o seu editorial é, em quase tudo, mais favorável às ideias do Obama, por que é que isto acontece? A razão só pode ser que valores mais altos se levantam. O McCain é visto, por esse e outros editoriais, e os lobbies a eles ligados, como uma carta mais segura do ponto de vista do ataque ao Irão que se avizinha. O Obama bem jurou que também faria essa guerra se necessário, mas parece forçado, menos seguro. E mesmo que esse ataque não suceda nos próximos anos, o McCain parece mais seguro para o contínuo cerco à Rússia, e à China, o combate ao Irão, as ameaças veladas contra o Paquistão e Síria. É por tudo isto que eu vi aquele elefante naquele quadro. |
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