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Mais, mais e ainda mais auto-estradas vazias. Seria esta a hora dos transportes públicos, por todas as razões, mas os nossos governos continuam a construir o deserto. Será que não sabem que Portugal, sendo uma das economias mais débeis da Europa, estando no último lugar em matéria de educação e formação, é por outro lado um dos países que melhores infra-estruturas rodoviárias tem desde há alguns anos? Será que não sabem que os países de sucesso não são os que investiram em auto-estradas?
Claro que sabem. Não só sabem, como deixaram de poder fingir que não sabem, desde que há uns meses o "Expresso" expôs o drama ao grande público, exibindo os mapas da vertiginosa irrigação do Litoral português com auto-estradas e farrapos de auto-estradas. Então? Será que esta festa de betão e alcatrão só tem a ver com comércio de votos (locais e nacionais), e um qualquer estudo de marketing terá informado o Governo de que este povo não precisa de mais do que telemóveis e auto-estradas à porta de casa? Será que tem a ver com interesses económicos e corrupção?
Numa entrevista recente, o Primeiro-Ministro, em resposta à alegação de falta de dinheiro para as obras públicas devido à crise, garantiu que elas são para executar "todas".
Não só as auto-estradas. TGV, aeroportos, mega-pontes, gigantescos viadutos (Lezíria, Barreiro), túneis, que fazem o orgulho dos engenheiros, esvaziam os nossos bolsos e principalmente os bolsos dos nossos filhos. Rotundas, plantadas por toda a parte. Milhares de "centros culturais", "museus" e afins, que os autarcas semeiam em tudo o que é vila ou pequena cidade, como se de grandes aglomerados urbanos se tratassem.
Estes moderníssimos "espaços culturais" ficam às moscas, claro, pela dimensão das respectivas localidades e pelo desinteresse das pessoas. As auto-estradas, com algumas excepções, também ficam às moscas - ligam terras pequenas e quem se desloca regularmente não tem dinheiro para as portagens, com a gasolina ao preço que está. É impressionante dar umas voltas de carro pelas auto-estradas vazias da Estremadura, do Ribatejo, da Beira Litoral. Parece que estão a construir um deserto de betão.
O investimento público revitaliza a economia? Então porque não substituem o investimento em auto-estradas pelo investimento em bons transportes públicos? "O Português" é avesso a transportes públicos? Pois sim, mas o preço da gasolina está a tornar o uso do carro numa impossibilidade. Ou seja, seria esta a hora dos transportes públicos em Portugal. Não, não é o TGV, são transportes públicos urbanos.
O investimento público revitaliza a economia? Pintem as passadeiras! Ponham passeios nas estradas nacionais que atravessam localidades! Não imaginam o retorno que isto não traria, ao salvar a vida de milhares de peões. Se a questão está em movimentar dinheiro, têm muitas coisas úteis onde gastar, não é preciso auto-estradas. Porque não reequipam hospitais, escolas e universidades, por exemplo? Porque não gastam com a formação dos profissionais, públicos e privados, orientada para as necessidades da economia globalizada? Acharão os governantes que estes investimentos (dotar universidades com boas condições materiais é um bom exemplo) não trazem retorno no futuro?
Não vamos cometer a injustiça de dizer que este governo não tem investido - e bem - em tecnologia, em dotar o país de autonomia energética, em modernizar a administração pública. Mas em tempo de desertificações anunciadas, para que precisamos mais desertos?
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