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Educação: causas de um fracasso
Por Draga-Minas , 01/02/2010

É possível passar de ano sem esforço. É possível ofender sem castigo. Os professores de hoje são ignorantes. A escola não serve para nada.

Eis algumas das ideias trágicas com que nas últimas décadas a sociedade portuguesa, incluindo - e de que maneira - todos os agentes educativos, se obstinou em não tirar a educação portuguesa do fundo de um poço onde se encontra há bem mais de um século.

Na nossa perspectiva os principais termos da equação não são difíceis de encontrar. À cabeça, o facto de os regimes anteriores ao de Marcello Caetano terem apostado na ignorância da população como forma de dominação. A alegria na pobreza foi o crime mais horrível de Salazar, em forma de ideologia e com todas as implicações que teve para o actual estado da nossa educação.

É chocante ver os economistas de serviço elogiarem o Portugal da ditadura pelo elevado crescimento económico que manteve desde os anos 60, como se esse crescimento não fosse obrigatório num país cercado por uma Europa rica, no qual porém as pessoas andavam descalças e não comiam carne a não ser em Lisboa. É como elogiar os 15% de crescimento anual da Roménia dos anos 90. Medina Carreira e César das Neves chegam ao desplante de comparar o Portugal de hoje com esse então território em que a liberdade e a cidadania eram negadas às pessoas. Mas mais revoltante é quando situam esta comparação no terreno da educação, como há semanas vimos num debate, quando foi esse o legado mais negro do Estado Novo. Efectivamente, em termos de literacia, nos anos 50 e 60, Portugal não estava na cauda da Europa, mas na cauda do mundo, se exceptuarmos a África sub-sahariana, o Sul da Ásia ou as regiões mais pobres da América do Sul. Medina Carreira diz que no tempo dele "se aprendia" em Portugal. É certo. O problema é que poucos aprendiam. Os créditos vão para todos os que lutaram para dotar este país de um mínimo de dignidade, isto é, de uma população instruída: desde os governos de Marcello Caetano, aos agora desprezados empreendedores da verdadeira "epopeia de descobrimentos" que foi a massificação do ensino a seguir ao 25 de Abril.

As frases profundamente trágicas e equívocas com que começámos este texto e que se generalizaram na sociedade têm raízes óbvias na velocidade com esta massificação foi feita em Portugal. Note-se bem: em 1850, a Alemanha tinha 0% de analfabetos. Portugal teve que (está ainda a) atacar um atraso de dois séculos em escassas décadas.

Assim, gerações de jovens portugueses do pós-25 de Abril foram à escola com os respectivos pais, pouco educados, a sussurrarem-lhes ao ouvido que a escola não servia para nada.

A situação agravou-se muito nos anos 90, quando a maioria da população - pouco educada, é importante repeti-lo - passou a ter acesso relativamente fácil aos bens de consumo e a uma vida confortável. Esses pais ficaram inchados: "Vês? Alguém precisa daquilo? Tu sabes mais que aquele gajo que ali anda armado em professor!"

A desautorização dos professores e o aumento da indisciplina foram concomitantes com o acesso ao consumo de massas por estes segmentos da população. Eles trouxeram a visão ignorante da escola e da aprendizagem, que explica por exemplo por que são os filhos dos ucranianos sempre os melhores da turma em Portugal: é uma consequência natural do nosso percurso histórico. A partir dele, multiplicam-se os termos da equação:

- A hipocrisia da classe política, a quem não interessa voltar a impor a qualidade no ensino público, através dos actualmente indispensáveis sistemas de selecção rigorosa e de ava e de avaliação de professores.

- A obstinação de sociólogos que, como Maria de Lurdes Rodrigues, alegam que "os custos sociais" da reprovação são maiores que os custos de um aluno passar de ano sem saber o suficiente, um raciocínio responsável pela sedimentação de um défice de aprendizagem que vai crescendo cumulativamente até ao final dos estudos.

- A hipocrisia dos sindicatos de professores, que por motivações partidárias são os primeiros e principais responsáveis pela manutenção da mediocridade do processo, evitando demagogicamente a avaliação de professores.

- A burocracia do Ministério da Educação, pauzinho na engrenagem das tentativas sérias de mudança.

- Finalmente, a mais imoral e perversa das hipocrisias, que é a dos pais - aqueles pais que se demitem da responsabilidade de exigir muito esforço e muito estudo aos seus filhos, preferindo responsabilizar o "sistema de ensino" pelos fracassos, e atacar infantilmente os professores, quando estes têm a coragem de ser aquilo que todos deveriam ser, isto é, rigorosos e exigentes.

Há sinais de esperança. O gap geracional de que falámos tende a esbater-se. Nos últimos cinco anos houve um investimento maciço, por parte do Governo de José Sócrates e da população que lhe correspondeu, na requalificação, através das "novas oportunidades". Os economistas de serviço desvalorizam, naturalmente, estas centenas de milhar de licenciaturas e mestrados, porque não estão imediatamente ligadas ao mercado de trabalho. Vêem-nas como "caprichos". Não percebem que uma população mais educada é uma população mais exigente e por isso, ao fim de algum tempo, mais rica.



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